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O Agir Educacional em Direitos Humanos

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Partimos da afirmação da necessidade de “desnaturalizar” a posição que supõe que basta a transmissão de conhecimentos sobre Direitos Humanos para que necessariamente a educação em Direitos Humanos esteja presente.

Defendemos a tese de que não é possível dissociar a questão das estratégias metodológicas para a educação em Direitos Humanos de uma visão político-filosófica, de uma concepção dos direitos humanos e do sentido de se educar em Direitos Humanos numa determinada sociedade e em um momento histórico concreto.

As estratégias pedagógicas não são um fim em si mesmas — estão sempre a serviço de finalidades e objetivos específicos que se pretende alcançar.


Estratégias Metodológicas e Concepção Crítica

As estratégias metodológicas utilizadas na educação em Direitos Humanos devem estar em coerência com a concepção histórico-crítica do papel dos Direitos Humanos na sociedade e do sentido da educação nesse âmbito:

  • Formar sujeitos de direito;
  • Empoderar grupos socialmente vulneráveis e excluídos;
  • Resgatar a memória histórica da luta pelos Direitos Humanos.

Do ponto de vista pedagógico, na América Latina, as contribuições de Paulo Freire são reconhecidas como fundamentais na construção dessa perspectiva crítica.

Alguns de seus componentes são especialmente pertinentes à educação em Direitos Humanos:

  • Crítica à educação bancária e defesa de uma educação problematizadora;
  • Centralidade dos temas geradores, oriundos das experiências de vida dos educandos;
  • Reconhecimento dos universos socioculturais e dos saberes dos educandos;
  • Valorização do diálogo e das práticas participativas;
  • Promoção da passagem da consciência ingênua à consciência crítica das realidades sociais.

Reflexão sobre as Práticas Educativas

A primeira pergunta que devemos nos fazer é:

As estratégias pedagógicas que privilegiamos como educadores em Direitos Humanos favorecem caminhar nessa direção?

É comum afirmarmos que queremos formar sujeitos de direito e colaborar na transformação social, mas, do ponto de vista pedagógico, utilizamos majoritariamente estratégias centradas no ensino frontal — exposições verbais ou mediáticas —, introduzindo, quando muito, espaços de diálogo.

Esse tipo de prática atua predominantemente no plano cognitivo, oferecendo informações e conceitos, mas ignora as experiências e histórias de vida dos participantes, limitando-se, em geral, à sensibilização e motivação. Seu caráter formativo acaba sendo muito frágil.


Metodologias Ativas e Participativas

A utilização de metodologias ativas e participativas, o emprego de diferentes linguagens e a promoção do diálogo entre saberes devem estar presentes em todo o processo educativo, tomando como referência a realidade social e as experiências dos participantes.

Destaque especial deve ser dado aos relatos de histórias de vida relacionadas às violações ou à defesa dos Direitos Humanos, apresentados pelos próprios participantes, seja por meio de entrevistas, matérias jornalísticas ou outros meios de comunicação.


Oficinas Pedagógicas

Uma das estratégias metodológicas mais eficazes é a das oficinas pedagógicas, concebidas como:

Espaços de intercâmbio e construção coletiva de saberes, de análise da realidade, de confrontação de experiências, de criação de vínculos socioafetivos e de exercício concreto dos Direitos Humanos.

Nessas oficinas, estão presentes elementos como:

  • Atividade e participação;
  • Socialização da palavra;
  • Vivência de situações concretas (sociodramas, análise de acontecimentos);
  • Leitura e discussão de textos;
  • Vídeo-debates;
  • Trabalho com expressões da cultura popular.

Trata-se, portanto, de transformar mentalidades, atitudes e comportamentos, bem como dinâmicas organizacionais e práticas cotidianas dos diferentes atores sociais e educativos.


Abordagens Contextuais e Flexíveis

É importante ressaltar que cada contexto exige abordagens próprias.
Não se trabalha da mesma forma:

  • Na universidade;
  • Em turmas do ensino fundamental ou médio;
  • Com movimentos sociais, mulheres ou promotores populares.

No entanto, o enfoque metodológico deve sempre privilegiar estratégias ativas, que articulem teoria e prática, dimensões cognitivas e afetivas, e envolvimento em práticas sociais concretas.


Considerações Finais

O essencial na educação em Direitos Humanos é ter clareza sobre os objetivos e construir estratégias metodológicas coerentes com a visão assumida, privilegiando a atividade e participação dos sujeitos envolvidos no processo.

Trata-se de educar em Direitos Humanos — isto é, propiciar experiências em que se vivenciem os Direitos Humanos.

Referência:
CANDAU, V. M. F.; SACAVINO, S. B. (2013). Educação em Direitos Humanos: fundamentos teórico-metodológicos. Rio de Janeiro: Vozes, p. 63–64.